domingo, 7 de maio de 2017

LOGRADOUROS PÚBLICOS NA HISTÓRIA ITAUNENSE

Guaracy de Castro Nogueira

         É lamentável o que ocorre em Itaúna. A vida de uma cidade está na sua alma, a qual, ao longo de sua existência, vai-se vitalizando pelo potencial da gente que se destaca por entre a urdidura humana que a compõe e impele.
         As personalidades marcam um povo, uma localidade. Pará de Minas é apontada como a terra de Benedito Valadares; Três Corações nos lembra de Pelé; Pitangui nos traz às memórias de dona Joaquina do Pompéu e dona Maria Tangará; Bom Despacho recorda Olegário Maciel; Araxá não deixa dona Beja ser esquecida e São João Del Rei é a terra de Tancredo Neves. Estas comunidades se ufanam quando lembradas pelo valor de seus filhos.
         Nos meus encontros com os jovens que me procuram para saber um pouco da história de Itaúna, faço questão de lhes perguntar:
-         Onde você mora?
Na Rua João de Cerqueira Lima, na Rua Josias Nogueira Machado, na Rua Gonçalves da Guia, na Praça Luís Ribeiro e citam, sem dúvida, nomes de pessoas ilustres que ajudaram a construir a grandeza de nossa comunidade.  Quando lhes pergunto quem foram tais personalidades que deixaram seus nomes em ditas ruas, nada explicam, nada sabem, tudo ignoram. Ninguém está mais aí, para essa do quem é ou quem foi. E, lamentavelmente, há nomes que todos ignoram e que me surpreendem, só conhecidos do autor da lei que os propôs.
         Melhor seria, quem sabe, trocar os nomes dos logradouros públicos de nossa cidade que não cultua seus líderes dos idos passados, para coisas que o povo conhece, porque não, delas dependem para orientar e circular: Rua Direita, Beco da Caridade, Rua do Comércio, Porteira do Mirante, Bairro da Ponte, Beco do Jota, Travessa 2 de Janeiro, Rua das Viúvas, Bairro do Serrado, Rua São Vicente, Rua da Harmonia, Bairro da Vargem, Rua do Rosário, Rua da Linha e tantas outras das quais não me lembro, nomes que fazem parte de nossa história e ainda povoam nossa memória.
         Defendo intransigentemente a manutenção dos nomes dos logradouros públicos. Não será por mera bajulação ou mesmo para homenagear mortos ilustres que se lhes trocará a denominação. Não faltam logradouros públicos novos para se utilizarem no preito àqueles que o merecem. Quem dá nome a logradouros públicos é o povo, através dos vereadores e do consenso da Câmara Municipal. Só em regimes autoritários é que o Prefeito ou a autoridade executiva dá nomes às coisas. Os nomes antigos foram batizados pelo uso e costume dos cidadãos. A lei apenas homologava a vontade popular.
         Até por respeito à história, conveniente seria que se preservassem os nomes antigos muitos dos quais mais saborosos. Onde estão a Rua do Cascalho, a Rua do Canto, a Rua das Piteiras e o Alto da Laje?
         A política é terrível. O nosso Largo da Matriz já se chamou Praça João Pessoa, Praça Mário Matos, Praça Benedito Valadares e agora se chama Praça Dr. Augusto Gonçalves. Extinto o velho cemitério, onde se tentou construir a nova Matriz, boicotada pelos ricos da época, contra a bela planta do arquiteto italiano Rafello Berti, o logradouro ia se transformar numa praça ajardinada em respeito aos mortos que lá foram sepultados, a ele deu-se o nome de Praça Mário Matos. A política destruiu a praça lá edificando o Grupo José Gonçalves de Melo, um clube dançante, um sindicato, e o prédio dos Correios e Telégrafos.  Não arrancaram o nome de Mário Matos, mas destruíram a praça com seu nome, porque todos o consideravam como o autor intelectual do fechamento de nossa Escola Normal.
         Dois nomes em Itaúna foram impostos pelo governo ditatorial: Avenida Getúlio Vargas e Praça Benedito Valadares. A avenida, que era rua, e a praça principal se tornaram nomes dos detentores do poder na época, por força de um decreto do ditador. Os udenistas radicais, que depuseram Getúlio e Benedito, arrancaram o nome do Benedito da praça principal, porque ele havia fechado nossa Escola Normal e só não arrancaram as placas da Avenida Getúlio Vargas, porque o líder queremista Zé Biscoitão, à frente dos operários, se opôs à turba da UDN. No fundo foi um ato de coragem do líder dos trabalhadores e a perspectiva histórica nos diz hoje que Getúlio, no balanço de sua passagem pelo governo, foi um estadista, responsável pela implantação da legislação social em benefício dos mais humildes e dos trabalhadores de um modo geral.
         Trata-se de um problema cultural. Às vezes somos progressistas e até civilizados, mas pouco cultos. Cultura é a expressão máxima de um povo!


Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira
Texto: Guaracy de Castro Nogueira (in memoriam)


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