sábado, 20 de maio de 2017

PE. WALDEMAR ANTÔNIO DE PÁDUA TEIXEIRA

Projeto de Lei 774/65 - CEP: 35680-381
Denomina logradouro público: Rua Pe.Waldemar Antônio de Pádua / Piedade

 

HOMEM SANTO DE DEUS

Guaracy de Castro NOGUEIRA

Nasceu aos 12 de junho de 1900 em Ouro Preto. Foi batizado pelo Monsenhor Cândido Velozo, na qualidade de vigário encomendado na Freguesia de Nossa Senhora do Pilar, no mês de setembro seguinte. Filho de João Batista Teixeira Ruas e de D. Maria do Carmo Ruas. Foram seus padrinhos o farmacêutico Lauro Barbosa e D. Amélia Ferreira Ruas. Por ocasião da visita pastoral de D. Silvério Gomes Pimenta, Arcebispo de Mariana, na mesma matriz de Senhora do Pilar, foi crismado em novembro de 1907. Nessa matriz foi coroinha e sacristão. Saiu de Ouro Preto com 19 anos. Empregou-se como porteiro do Colégio Arnaldo. Em 15 de fevereiro de 1921 foi matriculado na Escola de Soldados, serviu o Exército até 1922. Pela sua Caderneta de Tiro parece-me que não era exímio atirador. Afinal esta não era sua missão...
         Acolhido carinhosamente por D. Antônio dos Santos Cabral, ingressou no Seminário, inicialmente como servidor no Palácio Arquiepiscopal, pois era pobre, tinha vocação, mas sem recursos e sem bolsa para seus estudos. Recebeu a 1ª Tonsura em 8 de dezembro de 1928; as duas primeiras ordens menores em 8 de dezembro de 1929 e as duas últimas em 6 de dezembro de 1930. Subdiácono em 8 de dezembro de 1930 e Diácono em 19 de maio de 1931. Ordenado presbítero, na Catedral de Boa Viagem, por D. Cabral, em 7 de junho de 1931.
         Começou seu ministério sacerdotal como Capelão do Noviciado da Piedade. Depois, vigário de Papagaio, Maravilhas, Pequi, Itaúna (1938 a 1942), Santo André em Belo Horizonte, Igaratinga e novamente Maravilhas. De 1951 a 1980, por 29 anos capelão da Santa Casa de Itaúna. Vigário de Santanense e vigário cooperador da paróquia de Sant´Ana, cumulativamente. Em 1966, recebeu das mãos de D. Cristiano Portela, bispo de Divinópolis, o título de Cônego Honorário da Diocese.
         Faleceu em 3 de outubro de 1983, cercado do carinho e da admiração dos itaunenses. Está sepultado no cemitério local, onde há flores e possivelmente velas acesas, qualquer dia em que seu túmulo é visitado.
Quer como coroinha na Igreja do Pilar de Ouro Preto, órfão aos sete anos de pai e mãe, carente de afeto e de carinhos humanos; quer como sacristão da mesma paróquia, quer como porteiro do Colégio Arnaldo, quer como valoroso soldado do nosso glorioso Exército, quer como serviçal humilde no palácio arquiepiscopal, quer como seminarista; a partir de 1931, finalmente, como sacerdote, vigário e capelão, desde sua ordenação, foi, para a época em que viveu, um verdadeiro PADRE, aos olhos do povo cristão e católico.
 Longe de aparecer como um simples líder eclesiástico ou líder da comunidade, um mero administrador de coisas religiosas, se projetou como enviado de Jesus Cristo para ensinar, revelando a mensagem evangélica, principalmente pelo exemplo; para santificar, distribuindo a vida de Deus; para governar, mostrando o caminho do espírito!
É do padre que parte todo o dinamismo sobrenatural da Igreja. Nosso apostolado, o apostolado dos leigos, dos fiéis encontrará o seu ponto de inserção no apostolado do padre. Toda vida exterior da Igreja deriva, principalmente, da prodigiosa e imensa fecundidade da vida interior do padre e da vida interior dos leigos, autênticos cristãos.
Ninguém, neste sentido, foi melhor apóstolo da Igreja que o nosso querido Padre Wakdemar! Ninguém melhor compreendeu e viveu o primado das forças interiores. A vida do Padre Waldemar foi toda ela uma vibração de dentro para fora, deixando exemplos, a grandeza de seu coração de padre.
Guardo com carinho o discurso que o diácono Waldemar pronunciou no dia de sua ordenação, na presença do Arcebispo Dom Cabral. Entre outras palavras disse:
“Senhor Arcebispo, devíeis hoje ordenar pelo menos doze em vez de dois, tantas são as necessidades da nossa querida pátria! Mas, confiado em Deus, hei de aumentar as vossas esperanças e farei por me multiplicar a fim de que possa minorar as deficiências e a vós rendo publicamente a minha gratidão por me terdes transformado de um humilde porteiro de uma casa religiosa e de educação em porteiro do céu, pois aqueles que conduzem as almas ao céu são os seus porteiros, porquanto estes administram os meios deixados por Jesus para ser alcançado o céu, abrindo suas portas para que os pecadores arrependidos possam  atingir o desejado fim último”.
Este o Padre Waldemar! Sempre preocupado em conquistar almas para Cristo!
Sacerdote, outro Cristo! Esta verdade lembrava-lhe talvez (quem sabe?) os primeiros desenganos...as rosas, o fogo, o ardor do ideal, murchando sob os golpes do vento rijo da realidade clara, que é a vida , também a vida sacerdotal! Lembra-lhe, quiçá, a via-sacra que lhe foi dado percorrer por alguns anos em várias paróquias – à imitação do Divino Sacerdote. As viagens difíceis, a queda do cavalo, a perna quebrada, um sem número de sofrimentos, as injustiças que sofreu até de irmãos do clero, a ponto de dizer-me, certa feita, que as dores morais doíam mais do que as físicas.
O vento de sucessivos invernos que lhe fustigaram o rosto, aqui e em outras plagas, não lhe deixaram marcas, grande era o seu coração que sabia perdoar. O ideal que foi o norte de sua vida exemplar – ideal sacerdotal – o Padre Waldemar o trouxe sempre aceso, erguendo como um facho em meio aos lugares por onde andou. Foi um homem recolhido, um homem silencioso. O silêncio foi a sua linguagem, seu gênio, sua força. Neste mundo dessacralizado como o nosso, nem sempre se empregam critérios adequados para julgamento dos homens da Igreja. Cada um é cada um, com seu modo de ser.
A presença do Padre Waldemar inspirava silêncio – o silêncio fecundo das almas densas. É que sua vida era um constante orar – ora o breviário (no seu tempo, livro das rezas cotidianas do clérigo), ora o terço – um diálogo permanente com Deus. Por isto, na sua presença, sentíamo-nos perto de Deus, tanto nos dava a impressão de estar conversando com Ele.
Este o Padre Waldemar! Um varão esquivo e discreto, sóbrio na sua vida, nas suas palavras e sóbrio nas suas atitudes. Embora secular, vivia intensamente os votos dos padres regulares: obediência, pobreza e castidade. Fiel a si mesmo, cumpria obstinadamente o programa que traçou para a sua vida, indiferente aos ruídos exteriores. Era um homem da Igreja, de sua Igreja, da nossa Igreja. Para a Igreja viveu. E viveu pobremente. Todo dinheiro que chegava às suas mãos era utilizado para a formação de bolsas para seminaristas pobres.
Publicando ligeiros traços de sua vida exemplar, todos sentimos e compreendemos, cristã e profundamente, a extensão e o verdadeiro significado do sacerdócio, e entendemos a verdade traduzida na expressão: Sacerdote, outro Cristo!
Este o homem que homenageamos. Este, o padre que tanto admiramos. Vivendo hoje no mundo dos santos, afastado de todo rumor, temos certeza, vive pensando no progresso espiritual das almas, ajudando São Pedro como porteiro do céu, por onde entram todas as almas que invocam sua proteção e intermediação!




PADRE WALDEMAR ... “LEVITAVA” NA HORA DAS MISSAS

Prof. Luiz MASCARENHAS

         Fui criado na rua Silva Jardim, atrás do balcão da óptica de papai, que ficava defronte para o Banco da Lavoura – posteriormente – Banco Real. E desse tempo, guardo muitas lembranças.
         Lembro-me dele também. Na minha meninice, para mim era apenas o padre. O padre que subia a Silva Jardim; quase todos os dias e invariavelmente no mesmo horário. Muitos subiam a Silva Jardim, contudo, a figura do padre me chamava a atenção. Parecia quase uma figura mítica, estranha à paisagem cotidiana.
         Vinha ele, capengando de lado para outro, com um dos pés pisando “pra dentro” como se dizia... Vestia uma pesada batina preta (que mais tarde aprendi que se chamava “greca” -  um sobretudo ao modelo jaquetão, de botões trespassados e com dois bolsos...) e com um guarda –chuva pendente de um dos braços. A cabeça encanecida e uma barba rala por fazer.
         Muitos de meus colegas tinham medo dele. Eu não tinha medo dele. Tinha curiosidade. Meus pais sempre me diziam: “peça a benção para o padre” e eu ficava ali, fitando seus passos incertos até chegar próximo da loja. Impaciente, corria ao seu encontro e dizia todo entusiasmado: “bença padre” e logo puxava-lhe a mão para beijar. Ele dava um sorriso bonachão e dizia “Deus te abençoe! ”; vez por outra colocava a mão sobre a minha cabeça...E eu ficava encantado com aquilo.
         Sempre que o via pelas ruas, andando com dificuldade, pedia para o meu pai: “ dá carona pro padre papai...tadinho, tão velhinho...” E papai parava o carro e ele se sorria e se assentava no lado do carona e lá íamos para o Hospital. Parece-me que sempre esse era o seu destino. E eu voltava para casa todo feliz por termos ajudado o padre velhinho...
         Quando estudava na Escola Normal (Escola Estadual de Itaúna) eu o via nas tardes ensolaradas entrando na casa da dona Arthumira e do seu Moreira (sogros do Dr. Guaracy) que ficava em frente a escola.
         Na Semana Santa, papai me colocava sobre os ombros e eu ficava fitando o Pe. Waldemar indo e voltando próximo ao altar, de batina e sobrepeliz rendada...esperando a procissão do Encontro chegar na praça. Já na juventude, o visitei diversas vezes em seu quarto no Hospital aonde residia e celebrava a Missa todos os dias pela manhã na capela. Recordo-me que ele falava grosso e baixinho...custava a entender o que dizia...
         Tenho em minha memória também o dia do seu funeral (uma primeira sexta-feira do mês aonde de celebra a devoção do Sagrado Coração de Jesus), com dezenas coroas de flores pelos corredores da Matriz de Sant’ana e os mais velhos com os olhos úmidos de lágrimas...Na época eu era acólito do bispo, Dom José da Costa Campos, que fez uma bonita pregação neste dia sobre o Bom Pastor. Neste dia, um estranho arco íris em volta do sol chamou atenção dos fiéis de Itaúna.
         Muito tempo depois, vejo o seu retrato no andar superior do Hospital “Manoel Gonçalves” – certamente- o seu último capelão oficial... Papai tem por ele grande devoção.
         Pe. Waldemar para mim foi dessas personagens que habitam as mais remotas lembranças de infância. Hoje tenho a consciência de que foi o pároco de Sant’ana (1938 – 1943) que terminou a construção da Igreja Matriz de Sant’ana. O padre que “levitava” na hora das missas.

Padre Waldemar


REFERÊNCIAS:
Texto1:  Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam)
Texto 2: Prof. Luiz Mascarenhas
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira
Fotografia / Pe. Waldemar: Antônio Gomes
Fotografia: Charles Aquino
Projeto de Lei dos Logradouros: Prefeitura Municipal de Itaúna


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