terça-feira, 2 de junho de 2026

LOGRADOUROS 1891

LOGRADOUROS DE ITAÚNA MG
Entre nomes, memórias e projetos: a gênese simbólica das ruas de Sant'Anna do Rio São João Acima.(18/04/1891-18/04/2026)

No dia 18 de abril de 1891, no edifício do antigo Theatro do arraial de Sant’Anna de São João Acima (embrião da atual cidade de Itaúna) um pequeno grupo de conselheiros distritais reuniu-se para realizar um ato que, embora aparentemente burocrático, possuía profunda carga simbólica: atribuir nomes às ruas do povoado. 

Sob a presidência do dr. Augusto Moreira, os conselheiros Miguel José de Faria e João Antônio da Fonseca não apenas organizaram o espaço urbano — eles inscreveram no território a memória que desejavam perpetuar.

Era o início da Primeira República, período em que o Brasil buscava substituir símbolos imperiais por novos marcos cívicos, celebrando datas e personagens republicanos. Não surpreende, portanto, que muitas das ruas nomeadas expressassem essa adesão ao novo regime e seus ideais modernizantes.

Datas e ideais republicanos impressos no chão

Entre as denominações propostas, sobressaem as alusões a efemérides da construção nacional:

Rua 15 de Novembro — homenagem direta à Proclamação da República, e que permanece com este nome até os dias atuais;

Rua 13 de Maio, alusiva à Abolição da Escravidão, igualmente mantida no traçado urbano contemporâneo;

Rua 7 de Setembro, Rua 21 de Abril, Rua 15 de Junho e outras marcações temporais, compondo uma cronologia patriótica na cartografia local.

    Cumpre destacar que, mesmo sem constar na ata apresentada, a Rua Silva Jardim, existente em Itaúna é preservada até hoje, insere-se nesse mesmo movimento de exaltação cívica. 

    Seu nome homenageia Antônio da Silva Jardim, militante republicano fluminense, orador apaixonado e mártir da causa, morto tragicamente em 1891, ano da sessão analisada. Sua memória encontra, assim, eco e reverência no espaço itaunense.

    Essas referências demonstram que o arraial almejava situar-se dentro do espírito republicano, incorporando-se simbolicamente à nova ordem nacional.

     Fé e tradição e o costume oral: da permanência do sagrado à formalização urbana

    Ao lado da modernidade republicana, o tecido urbano preservou nomes ancorados na devoção católica, como Rua da Matriz, Rua do Rosário, Rua de São José, Rua de São Sebastião, Largo do Cruzeiro e Largo dos Passos. 

    Em uma terra marcada por irmandades, procissões e fé comunitária, o sagrado continuava a orientar caminhos, reafirmando que o nascimento cívico da cidade não apagaria sua alma religiosa.

    Persistiram também referências locais e comunitárias, tais como Beco do Tio João, Rua da Harmonia (antiga do Felizardo), Rua da Concórdia, Rua do Buracão, entre outras. São vestígios do modo como o povo nomeava os espaços antes da institucionalização: pelos moradores, pela paisagem, por acontecimentos cotidianos. 

    O Conselho, assim, congelava em letra pública uma geografia que já existia na memória viva dos habitantes.

    A metamorfose da Rua Direita

    Dentre as alterações posteriores, merece destaque especial a antiga Rua Direita, eixo estruturante da malha urbana. O nome, tradicional em vilas coloniais brasileiras para designar a rua principal, foi posteriormente substituído por Avenida Getúlio Vargas, durante o período autoritário do Estado Novo.

    Trata-se de um exemplo emblemático de como o poder político também inscreve seus símbolos na cidade: um nome republicano e popular cedendo lugar, por imposição do regime, à exaltação do governante centralizador e ditatorial.

    Hoje, ao caminhar pela avenida, o cidadão pisa não apenas no asfalto, mas na disputa histórica entre memória local e intervenções do poder estatal.

    Além das denominações, a ata revela outras preocupações típicas de uma comunidade que se modernizava: criou-se uma comissão para estudar o desvio das águas pluviais, evidenciando as primeiras ações de planejamento urbano, e reclamou-se sobre as irregularidades nas malas postais vindas pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, sinal da importância crescente da comunicação e do transporte ferroviário para o desenvolvimento econômico local.

    Considerações

    Nomear ruas é escolher memórias e escolher memórias é escolher identidades. Em 1891, Sant’Anna de São João Acima delineou, na tinta e no papel, o que desejava ser: uma comunidade enraizada na fé, mas aberta à República e à modernidade; uma vila que registrava sua oralidade e seu cotidiano, mas que almejava civilidade, ordem e lugar na história nacional.

    Curiosamente, alguns nomes sobreviveram incólumes ao tempo, como Rua 15 de Novembro, Rua 13 de Maio e Rua Silva Jardim, não apenas como placas de ferro, mas como símbolos de permanência e memória coletiva. 

    Outros se transformaram, como a antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, lembrança viva de que a cidade, assim como a história, também pode ser moldada por decisões centralizadoras e por projetos políticos impostos.

    Cada esquina nomeada naquela data, portanto, é um capítulo da formação urbana e simbólica de Itaúna. E ao revisitarmos essa ata, não lemos apenas uma lista, lemos o instante em que uma comunidade gravou sua alma nas ruas.

      TEXTO ORIGINAL

    CONSELHO DISTRITAL

    ATA DA 1ª SESSÃO ORDINÁRIA

    Aos 18 dias do mês de abril de 1891, no edifício do Theatro deste distrito de Sant’Anna de São João Acima, às 12 horas do dia, presentes os srs. Conselheiros: dr. Augusto Moreira, presidente, Capitão Miguel José de Faria e João Antonio da Fonseca, havendo número legal o sr. Presidente declara aberta a sessão.

    ORDEM DO DIA

    O sr. Presidente propõe e é aceito pelo Conselho um projeto dando às ruas desta freguesia as seguintes denominações:

    A rua compreendida entre as casas dos srs. Serafim Caetano e Francisco da Costa — Rua Direita.

    A que que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua Direita.

    A que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua 15 de Novembro.

    A antiga dos Ferreiros — Rua 14 de Junho.

    A que vai da casa do sr. Custódio Dornas à Igreja do Rosário — Rua 21 de Abril.

    A que vai do Serafim à Matriz — Rua Silva Jardim.

    A que vai do sr. José Pinto à Porteira do Vigário — Rua Tiradentes.

    A que vai da Matriz à Vargem — Rua da Matriz.

    A antiga das Viúvas — Rua da Boa Vista.

    A que vai do sr. Joaquim de Freitas ao sr. Francisco Dornas — Rua São José.

    A antiga da Vargem — Rua da Alegria.

    A que vai da casa do sr. José Silvério ao Mirante — Rua do Rosário.

    O antigo beco do Tio João — Beco do Tio João.

    A antiga do João Lopes — Rua do Theatro.

    A antiga do Felizardo — Rua da Harmonia.

    A antiga do Canto — Rua 7 de Abril.

    A antiga Rua Nova — Rua Nova.

    A antiga de São Sebastião — Rua de São Sebastião.

    A antiga do Buracão — Rua do Buracão.

    A que vai da Rua 13 de Maio à 15 de Novembro — Rua 7 de Setembro.

    A que vai da Rua Direita ao Quitão — Rua de Santo Antônio.

    A antiga Rua do Xilindró — Rua da Justiça.

    A que fica paralela a do Buracão — Rua do Fogo.

    A antiga das Diogas — Rua da Concórdia.

    A que vai do sr. José Pinto a Vargem — Rua 15 de Junho.

    O antigo beco de Francisco Gonçalves — Beco 15 de Novembro.

    Antigo beco do Costa — Beco do Costa.

    A Rua que vai da 15 de Novembro à do Buracão — Rua do Descanso.

    O antigo beco do Rosário — Beco do Rosário.

    O que vai da Rua Direita a da Concórdia — Beco da Concórdia.

    O antigo Largo da Matriz — Largo da Matriz.

    O antigo do Cemitério — Largo do Cemitério.

    Antigo Lardo do Serafim — Largo do Cruzeiro.

    Antigo Largo do Primo — Largo dos Passos.

     

    Por proposta do Presidente nomeou-se a seguinte comissão, composta dos srs. Capitão Miguel José de Faria, João Antônio da Fonseca e Capitão Vicente Gonçalves de Souza para apresentar na sessão de junho deste ano um plano de desvios das águas pluviais, nas ruas desta freguesia.

    Foi apresentada uma outra proposta do Presidente, mandando que se oficie ao Ilustrado Diretor dos Correios deste Estado, pedindo providencias sobre as irregularidades havidas nas malas desta freguesia, na estra de ferro Oeste de Minas.

    Aprovada. E nada mais havendo a tratar o sr. Presidente levanta a sessão até que se lavre a Ata. Reaberta a sessão e, esta aprovada, o sr. Presidente marca a 2ª sessão para 28 de julho, e encerra a presente sessão. Eu dr. Augusto Moreira, Presidente, servindo de secretário a escrevi.

    <Dr. Augusto Moreira>

    <Miguel José de Faria>

    <João Antônio da Fonseca>

     Referências:

    AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

    Jornal Centro de Minas, Sant’ Anna de São João Acima, 24 de abril de 1892, p. 2-3.

    A imagem utilizada nesta publicação foi criada com finalidade exclusivamente ilustrativa.  

    Logradouros de Itauna (MG) by Itaúna Décadas

    sexta-feira, 15 de maio de 2026

    DONA LADOMILA

    LOGRADOUROS DE ITAÚNAMG - HISTÓRIA

    Dona Ladomila: Fé, Caridade e Memória em Itaúna

    Este texto apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em 22 de abril de 1956.

     Mais do que uma homenagem, o registro permite compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu tempo.

    DONA LADOMILA

    Corria o ano de 1872, quando nasceu em Santana de São João do Rio Acima, Ladomila  Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro.

    Cresceu e desfrutou a vida de família rica e opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e Odilon, em 11 de agosto de 1900.

    Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e, depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de cada dia para seus queridos filhos.

    Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer. Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.

    Era católica fervorosa, estava enterrado o Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi a representante da Terra Santa em Itaúna.

    Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.

    Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.

    Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra. Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que sofria.

    Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou, porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer aquilo que essa senhora fazia!”

    Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida, alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: Uma sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora. Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir à sua casa.

    Terminada a novena, negou-se a entregar a santa. Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar, vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora, pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. 

    Dias depois, briga ela na igreja, em frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem, a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe da hipoteca!...”

    E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!

    Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a saudade, que é a memória do coração.”

    RUA DONA LADOMINA ITAÚNA MG
    Fotografia original publicada no jornal, integrando a biografia.

    Rua Dona Ladomila - Itaúna/MG CEP 35680-365



    Referências:

    Organização, pesquisa e arte: Charles Aquino

    Texto biográfico: Stella Máximo

    Imagem: Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e sua presença marcante na vida social de Itaúna.

    Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião Nogueira Gomide.

    Prefeitura Municipal de Itaúna e Câmara Municipal de Itaúna/MG.

    Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP:35680-365 (Lei 1343/76) 

    Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.

    Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho.  Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf