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quinta-feira, 14 de maio de 2026

CHICO MORAIS

Avenida Chico Morais - Itaúna/MG 35680-562

Avenida Chico Morais - Itaúna/MG CEP: 35690-562

A história de Itaúna também se constrói a partir de trajetórias individuais que, pela força de sua presença comunitária, ultrapassam o âmbito privado e passam a integrar a memória coletiva da cidade.

Entre esses personagens, destaca-se Chico Morais, cuja vida, marcada pela religiosidade, pelo espírito comunitário e pela atuação social, foi posteriormente reconhecida pelo poder público municipal.

A memória de Francisco Gomes de Morais foi formalmente institucionalizada no início da década de 1990. Em 20 de março de 1991, por iniciativa do vereador João Viana da Fonseca, foi apresentado o Projeto de Lei nº 40/91, que propunha a denominação de um logradouro público em sua homenagem.

A proposta foi aprovada, dando origem à Lei nº 2506/91, que oficializou a denominação da via como Avenida Chico Morais, situada, à época, no trecho que se estendia do bairro Garcias até a praça do povoado de Campos, no município de Itaúna. 

Trata-se de um exemplo claro de como o espaço urbano se torna também um espaço de memória, incorporando nomes que expressam valores reconhecidos pela comunidade.

A seguir, apresenta-se a transcrição do documento que fundamentou essa homenagem, preservando sua redação original. Trata-se do texto apresentado pelo vereador João Viana da Fonseca no âmbito do Projeto de Lei nº 40/91 na Câmara |Municipal de Itaúna/MG.

 

CHICO MORAIS - (12/11/1886 / 27/10/1963)

Francisco Gomes de Morais nasceu em 12 de novembro de 1886, em Rio Manso, MG. Era filho de Antônio Justiniano de Morais e Macrina Gomes de Morais.

Ainda quando criança, morando em Rio Manso, já se dedicava aos cultos religiosos, onde praticava os atos de “Coroinha” do padre Cesário, com o qual morava.

Mudando a família para o povoado de “Campos”, o mesmo também aconteceu com o focalizado.

Conhecendo Maria Antônia de Jesus, do povoado dos “Lopes”, em 10/09/1908, com a mesma contraiu matrimônio, de cuja união nasceram treze (13) filhos.

Ele foi um homem que se dedicou muito às coisas boas da vida. Era bastante alegre, gostava de música, de um jogo de truco, de missas, etc.

Não deixava passar um ano sem que fossem celebradas duas missas em sua casa, uma para a preparação para a Quaresma e a outra, a missa de Páscoa. Era um grande gosto seu, pois nessas épocas havia confissões e comunhões para todos os moradores da região.

Quando da época das “Missões”, sua casa servia de hospedagem para os padres e ponto de reuniões para os cristãos.

Era bastante caridoso, socorrendo várias pessoas menos afortunadas, prestando-lhes inclusive apoio moral e religioso. Sua casa não fechava portas a pobres e desvalidos, dando-lhes abrigo, alimentação, etc.

Exercia a função de inspetor escolar na escola dos “Lopes”, onde prezava pela educação das crianças. Todos os seus familiares o consideravam como um amigo, onde buscavam apoio para os momentos difíceis da vida.

Quando da Segunda Guerra Mundial, viu um de seus filhos ser convocado para combater em campos italianos, tristeza que invadiu seu lar, mas que, com o passar do tempo, foi superada com a alegria de seu retorno.

Como não podia deixar de ser, tinha suas preferências por candidatos políticos, nos quais toda a sua família depositava seus votos. Sua casa era bastante frequentada por pessoas da sociedade da época.

O Padre José Ferreira Neto foi a pessoa que celebrou as “Bodas de Ouro” do casamento do focalizado, que, junto com toda a sua família, o comemorou.

Mas, já com 77 anos, bem vividos, em outubro de 1963 começou seus sofrimentos, vindo a falecer. Deixou um caminho de bondade, amizade e, principalmente, de exemplo para seus filhos e familiares, de quanto um homem, embora rude, de pouca instrução, pode semear em campos férteis.

 

A trajetória de Francisco Gomes de Morais permite compreender aspectos centrais da organização social do meio rural mineiro ao longo do século XX. Sua vida revela a articulação entre religiosidade, sociabilidade e autoridade local, elementos que estruturavam o cotidiano de comunidades afastadas dos grandes centros urbanos.

A forte presença da religião em sua vida não se restringia à devoção pessoal. Ao sediar celebrações religiosas em sua própria residência, Francisco transformava o espaço doméstico em extensão da vida comunitária, assumindo uma função que, em muitos contextos, supria a ausência de estruturas eclesiásticas permanentes. Sua casa, nesse sentido, operava como centro de encontro, devoção e organização social.

A menção ao Padre José Neto, responsável pela celebração das bodas de ouro do casal, reforça sua inserção em redes institucionais da Igreja e evidencia seu reconhecimento social. A celebração, acompanhada pela família e pela comunidade, indica não apenas longevidade conjugal, mas também prestígio simbólico acumulado ao longo da vida.

A prática da caridade, amplamente destacada no documento, também deve ser compreendida para além do gesto individual. Em sociedades rurais, ações como acolher necessitados e oferecer apoio material e moral contribuíam para a construção de prestígio e autoridade simbólica, reforçando laços de reciprocidade e reconhecimento coletivo.

Sua atuação como inspetor escolar indica ainda um papel relevante na mediação entre comunidade e educação formal, evidenciando a importância de lideranças locais na difusão de valores e no acompanhamento da formação das novas gerações.

Outro aspecto significativo é a presença de elementos de sociabilidade cotidiana, como a música, os jogos e as reuniões que revelam uma vida comunitária dinâmica, baseada na convivência e na interação constante entre os moradores.

A experiência da Segunda Guerra Mundial, ainda que vivida de forma indireta, demonstra como eventos globais impactavam o cotidiano de famílias no interior, conectando o local ao cenário internacional.

A denominação da Avenida Chico Morais em Itaúna/MG não apenas identifica um espaço urbano, mas materializa uma escolha: a de preservar, no cotidiano da cidade, a lembrança de uma trajetória que marcou sua comunidade.

Mais do que um ato administrativo, a nomeação de logradouros públicos constitui uma forma de inscrição da história no espaço urbano, na qual indivíduos e suas experiências passam a integrar a paisagem da cidade como referências simbólicas.

Nesse sentido, Francisco Gomes de Morais (Chico Morais) permanece não apenas como figura do passado, mas como presença contínua na memória itaunense, inscrita literalmente, nos caminhos percorridos por seus habitantes.

Por fim, a própria construção dessa biografia, posteriormente incorporada ao espaço urbano por meio da denominação de uma avenida, revela um processo de elaboração da memória. 

Não se trata apenas de registrar uma vida, mas de afirmar valores considerados exemplares,  religiosidade, solidariedade e liderança como dignos de permanência no imaginário coletivo.

Avenida Chico Morais - Itaúna/MG 35680-562

Avenida Chico Morais - Garcias - Itaúna/MG - 35680-562



Referências:

Organização, arte e pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – Câmara Municipal de Itaúna - Projeto de Lei nº 40/91 – Lei nº 2506/91

Vereador João Viana da Fonseca -  Itaúna/MG

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Francisco Gomes de Morais, apresentada em 1991 pelo vereador João Viana da Fonseca durante a tramitação do Projeto de Lei nº 40/91, que deu origem à Lei nº 2506/91 para denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o contexto social do personagem, sua atuação comunitária, sua religiosidade, seu papel como referência local e sua ligação com a comunidade itaunense, elementos que fundamentaram a homenagem que nomeou a Avenida Chico Morais.  


quinta-feira, 18 de maio de 2017

JOVE SOARES

AVENIDA JOVE SOARES, ITAÚNA MG
 Lei Municipal 0214/53 - CEP: 35680-346 e 35680-352
Denomina logradouro público: Av. Jove Soares / Centro,Graça, Pio XII

LEI Nº 214, de 29 de dezembro de 1953
Denomina avenida marginal ao Córrego da Praia...
O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Denominar-se-á CEL. JOVE SOARES a avenida marginal do Córrego da Praia.
Art. 2º Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todas autoridades, a quem o conhecimento desta Lei pertencer, que a cumpram e a façam cumprir tão integralmente como nela se contém e declara.

Prefeitura Municipal de Itaúna, 29 de dezembro de 1953
Dr. Victor Gonçalves de Souza - Prefeito Municipal
Antônio Orlando Botelho Nogueira - Secretário



BIOGRAFIA

AVENIDA JOVE SOARES, ITAÚNA MG

Ombro alto, magro, 1,75 de altura, cenho carregado, cabelos ralos e grisalhos, barba e bigode feitos, lúcido e jovial, aos 85 anos de idade, andava o Cel. Jove Soares Nogueira teso e desempenado como um moço.

Nascera aqui mesmo na fazenda das Três Barras, quando Sant'Ana do Rio São João Acima era distrito da cidade de Pitangui, em 8 de julho de 1868, na quadra mais tormentosa da guerra do Paraguai, entre as batalhas de Humaitá e Itororó.

Era filho de Firmino Francisco Soares, de Jaguaruna, hoje Onça de Pitangui, e de Fabiana Nogueira Duarte, filha caçula do velho Manoel Ribeiro de Camargos, da fazenda da Vargem da olaria, um dos turunas da sua época, nos tempos de Santana.

Aos 26 anos de idade, isto é, em 25 de agosto de 1894, casara-se com sua prima Augusta Gonçalves Nogueira, uma garota de 16 anos , viva e bonita, inteligente e prendada, filha primogênita de Josias Nogueira Machado, que lhe enfeitiçou a vida e lhe infundiu animo e força de vontade para trabalhar como um gigante, criar uma família de onze filhos, dar a estes educação e estudo nos melhores colégios, deixando a todos, tranquilo e orgulhoso de sua obra, o amparo de uma dignificante educação moral e cívica, de uma boa cultura e de regular fortuna. No tempo de sua mocidade, fora sobretudo boiadeiro.

Não era do tipo desgracioso, desengonçado e torto da personagem de Euclides da Cunha, mas possuía em toda a sua plenitude a tenacidade, a bravura e a fortaleza do sertanejo.

Não possuía o hábito de se recostar, quando parado, ao primeiro umbral ou à parede que encontrasse; nem cair de cócoras sobre os calcanhares; nem o de descansar sobre   os estribos, quando sofreava o animal, pra trocar duas palavras com um conhecido. Era um sertanejo um tanto quanto civilizado, sem chapéu de abas largas, de vestimenta comum, com muita compostura nos gestos e nas palavras.

Impulsionado pela fibra inata, deste meninote se acostumou a varar os sertões. Acompanhado do criolo Hortêncio, ou do preto Paulino, ou do seu primo Versol, ombro alto, relho de cabo de peroba à mão, tronco pendido para frente e oscilando à feição do trote de seus surrados cavalos, desferrados e tristonhos, rumava para Goiás, por trilhos, veredas e estradas quase intransitáveis, em busca de gado.

 Sem saber nadar, vadeava rios caudalosos agarrado à cauda de seu animal. Isto numa era em que não existia nem o avião, nem o automóvel e nem o rádio. Levava três meses tangendo vagarosamente, daquelas brenhas longínquas para Santana, o gado bravio e chucro ali adquirido. Ora cantarolava em surdina atrás daquela mole ondulante toada de senzala; ora afundava nas caatingas garranchentas colado a um garrote arribado e esquivo; ora lutava loucamente para conter o estouro da boiada.

Em casa, só ficava o tempo necessário à engorda do gado invernado nas suas fazendas da Bagagem, das Três Barras e do Pedro Gomes.

Se não lhe aparecesse comprado à porta, com a mesma fibra e tenacidade, punha o gado gordo em marcha e ia vende-lo à charqueada de Santa Cruz, ou abatê-lo em Niterói, no Estado do Rio, outra tirada de mais de seiscentos quilômetros no lombo de seus célebres cavalos.

Tinha apenas o conhecimento das primeiras letras; mas, inteligente e cônscio disso, sabia porta-se com compostura, nas reuniões mais seletas. Trazia sempre pronta uma verve de ironia para os pomadistas, para os pelintras e para os metidos a sabichões. Bom palrador, deliciava-se com uma boa prosa, simples ou picante. Pouco crédulo, desconfiado e sem respeito humano, nunca se deixou apanhar por espertalhões. Estava sempre a par do que ia pelo mundo, através da leitura dos jornais, no que era um viciado. Não fumava, não bebia e não jogava, mas em compensação fora um emérito galanteador, fino e respeitoso.

Na luta pelo direito, era um obstinado; demandista, ferrenho, porém leal. Chegara até a demandar, em pleitos memoráveis, na repulsa daquilo que julgava intolerável injustiça, com um irmão amado e com o vigário João Ferreira Álvares da Silva. Era visceralmente econômico. Dava ao dinheiro extraordinário valor, talvez pelas canseiras do trabalho honrado e duro em adquiri-lo e por possuir no mais alto grau o senso da previdência. 

Depois dos quarenta e dois anos, convidado respectivamente pelos amigos Dr. Augusto Gonçalves de Souza, Cel. João de Cerqueira Lima, Dr. Cristiano França Teixeira Guimarães, e Dr. Tomas de Andrade, fundara com os mesmos, em maio de 1911, a Companhia Industrial Itaunense, e em janeiro de 1923 o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, S.A., de que fora grande entusiasta e onde invertia invariavelmente as suas economias na compra de suas ações.

Com o falecimento do Cel. Antônio Pereira de Matos, ocorrido em 27 de fevereiro de 1926, fora eleito diretor secretário da Itaunense , posto em que se manteve pela consideração de seus amigos até o fim de sua vida.

Nunca fora forte em política.  Mas vangloriava-se em tom de caçoada, em poder contar, em qualquer emergência, com dois votos seguros: o da Galinha Gorda, seu rendeiro da fazenda da Bagagem, e o do Antônio Luiz, seu sobrinho por afinidade. Mas, mesmo assim , foi vereador à primeira Câmara Municipal de Itaúna , em 1902 , mandato que lhe foi renovado até 1916; e foi Conselheiro Municipal  em 1932 e 1936.

Enviuvou-se em 14 de maio de 1935. E venerou a memória de sua esposa querida até o último alento. Todas as tardes, ao pôr do sol, em casa ou em qualquer lugar em que estivesse, voltava-se em espírito e coração pra o local onde jazia a amada, guardando uns minutos de silêncio, rezando baixinho, ou balbuciando coisas ininteligíveis, como a confidenciar com alguém de muita estima e respeito.

Falecera em 17 de novembro de 1953. Fora um bravo até para morrer. Se lhe fosse possível vencer a morte, ele a venceria, porque com ela disputava palmo a palmo, conscientemente, bravamente, o direito de viver um pouco mais, contendo, inúmeras de suas tremendas investidas, contrariando todos os prognósticos dos médicos assistentes, até tombar inconsciente, debaixo de seus inexoráveis tentáculos.



AVENIDA JOVE SOARES, ITAÚNA MG


REFERÊNCIAS:
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização & Fotografia: Charles Aquino
Biografia: Mário Soares
Projeto de Lei dos Logradouros: Prefeitura Municipal de Itaúna
Fonte: Revista Acaiaca nº 56, org. Celso Brant,1952, p.28,29,30,31.
Acervo: Instituto Cultural  Maria de Castro Nogueira - ICMC